É Logo Ali: Corridas dominam o calendário paulistano e permitem caminhantes de lado

É Logo Ali: Corridas dominam o calendário paulistano e permitem caminhantes de lado

Que me perdoe o colega Paulo Vieira, dono da coluna Sem Corredesta Folha, mas acredito ser importante fazer um apelo para esse monte de organizadores de corridas pelas ruas de São Paulo: que tal promoverem eventos que incluam caminhadas mais longas e não apenas os mixurucos 3k que (poucas) promotoras de pernadas cidade antes de incluir na programação? Por que não promover caminhadas longas, não como os passeios guiados por pontos históricos, que param a cada quarteirão, mas percursos maiores pelos muitos cantos de nossas cidades? Ou será que só manifestações contra, a favor ou muito pelo contrário oferecem ocasião de bater nas pernas?

Quando um jornalista cai na lista de contatos das assessorias de eventos esportivos, a caixa postal amanhece lotada de emails dando conta de corridas aos montes, nada menos do que 7 ou 8 a cada final de semana por tudo quanto é canto do país. Bom, desde minha última São Silvestre, em 2014, nunca mais voltei a correr, preferi me dedicar a caminhadas, trilhas e que tais. E devo supor que morro de inveja de ver tantas iniciativas distintas para quem bota os bofes para fora pelos parques, ruas, praias e matas por aí.

Mesmo as grandes manifestações de rua paulistanas, a Marcha para Jesus, nesta quinta-feira (4), e a Parada LGBT, no domingo (7), mais festas que caminhadas, diga-se, limitam seus percursos a 3,5 quilômetros de seus pontos de partida até os finais. E não dá para dizer que entoar louvores ou bater leques se enquadrem na categoria de exercícios aeróbicos, por mais animados que sejam.

Tem ainda iniciativas tímidas, como o projeto louvável Vamos Trilhar no Parqueiniciativa mensal gratuita da Secretaria Municipal de esportes e Lazer, que desde 2024 já levou cerca de 63.000 pessoas para caminhar por unidades de conservação da cidade. Mas, adivinhem: a distância maior percorrida é sempre de 3k. O tal número cabalístico que alguém deve ter concluído será o máximo que a tal vovozinha vai querer encarar.

Outro programa invejável e de mais fôlego é a Caminhada Noturnano Parque Estadual da Cantareira, no Horto Florestal de São Paulo, na zona norte, que soma cerca de 8k ida e volta até a Pedra Grande, de onde se vê a paisagem noturna da capital paulista e, com alguma sorte, um belo céu estrelado.

Se chegaram até a coluna essas duas honrosas restrições, é impossível ignorar que só em São Paulo, no começo do ano, fui informado de que mais de 250 corridas foram superprogramadas para os 52 finais de semana de 2026. Numa aritmética básica, quase 5 por final de semana. Alguns incluem os tais 3k de caminhada – mas, na maioria das vezes, a opção é quase como uma concessão à avozinha que vai acompanhar o neto prova corredor e dá uma volta pelo parque enquanto o jovem atleta tenta melhorar seu ritmo de olho na próxima.

Um exemplo dessa visão é o e-mail que recebi há poucos dias indicando uma pauta para uma atividade chamada Urban Walk, que será realizada no sábado (13) no parque Villa Lobos, na zona oeste de São Paulo. Como o nome sugeria ser uma oportunidade de caminhar, sem exigir tênis caríssimos e suplementos da moda, fui atrás para saber mais. E foi aí que percebi que eu não havia lido o texto inteiro: trata-se de uma corrida de 5k, que incluirá a opção de 3k para quem quiser caminhar. Tá.

Para não cometer nenhuma injustiça, até porque o mote da corrida era convidar a população a “dar o primeiro passo contra o sedentarismo” —e, confesso, a ideia muito me atrai— fui conversar com Thiago Klein, porta-voz da comercializadora da prova, a Norte Marketing Esportivo, que tocou o projeto do Instituto Esperança do Amanhã. Perguntei a ele exatamente o que as orientações lá em cima no início deste texto: por que só 3k de caminhada?

“A gente tem aqui no Norte o que chamamos de Movimento Nacional para Sair do Sofá”, explicou Klein à coluna. “Ele é basicamente uma ideia de antissedentarismo, de tentar tirar as pessoas do sofá e botar a pessoa pra correr, ir pra rua”, acrescentou. E lá veio de novo a ideia fixa da corrida…

“Mas mesmo para quem não corre, você vai dar a opção de caminhar em um evento que não é só andar pela rua”, ponderou, “é acordar cedo, ir para um lugar que tem um espaço construído, toda uma experiência para você, com dia de check-up, brindes distribuídos, aquilo tudo gera uma sensação de bem-estar só por se encontrar naquele ambiente, uma sensação de pertencimento também”.

“Com o tema ‘movimento que vira mudança’, o Urban Walk é um convite para a pessoa sair do sofá, vencer o sedentarismo e a obesidade”, diz o material da Norte. “Aqui o foco não é a performance, mas a saúde”, segue, o que, convenhamos, é bem diferente do discurso de superação de limites e marcas habituais. Ponto um favor.

Mas, então, reitero aqui o desafio: que tal oferecer opções de caminhadas longas, verdadeiramente voltadas a fazer pessoas andarem por sua cidade cada vez mais e mais longe, assim, roteiros de 3k, 5k e 10k sem necessidade de tênis com placas de carbono e whey no café da manhã?


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